A Janela Sempre Aberta
Sobre o hábito de esperar.
RAIO-X


A janela nunca era fechada por completo.
Mesmo nos dias frios, mesmo quando o vento insistia em atravessar o quarto, ela permanecia entreaberta. Não o suficiente para convidar alguém a entrar — apenas o bastante para permitir a possibilidade.
Não era distração.
Era escolha.
A abertura mínima criava uma linha de ar constante, quase imperceptível. Um lembrete de que o mundo continuava do lado de fora, mesmo quando tudo dentro parecia suspenso.
Havia quem perguntasse o motivo.
A resposta nunca era direta. Dizia-se que era para ventilar, para deixar a luz entrar melhor, para evitar o cheiro de quarto fechado. Mas nenhuma dessas razões sustentava o gesto com sinceridade completa.
A janela aberta era um acordo silencioso com a expectativa.
Não havia horário específico para olhar para fora. Às vezes o olhar escapava sem intenção, como quem verifica se algo mudou. Outras vezes, era deliberado: um exame demorado da rua, das pessoas que passavam, das luzes que acendiam e apagavam.
Nada extraordinário acontecia.
Ainda assim, a janela permanecia aberta.
O hábito de esperar não se constrói em um dia.
Ele se instala aos poucos, transformando-se em rotina. Primeiro, espera-se por algo concreto — uma mensagem, uma visita, um retorno. Depois, espera-se apenas por um sinal qualquer que justifique a abertura contínua.
A janela começa a acumular marcas do tempo.
Pequenos ruídos ao ser tocada, uma leve inclinação na moldura, o vidro que já não fecha com a mesma firmeza. Mesmo assim, ela continua ali, cumprindo sua função simbólica.
Em certos dias, surge a vontade de fechá-la de vez.
Encerrar o ciclo, interromper o fluxo de ar, aceitar que nem tudo precisa permanecer acessível. Mas a mão hesita antes de completar o movimento.
Fechar seria definitivo demais.
A janela sempre aberta não garante retorno algum.
Ela apenas mantém viva a ideia de que algo ainda pode acontecer.
E talvez seja isso que sustente o gesto:
não a certeza, mas a possibilidade.
Enquanto houver uma fresta, haverá espaço para imaginar.
E enquanto houver espaço para imaginar, a janela continuará entreaberta — não por ingenuidade, mas por escolha silenciosa.
A Janela Sempre Aberta
Sobre o hábito de esperar.


