Antes da Última Hora
O relógio continuava funcionando, mesmo depois de ninguém mais conferir o horário.
RAIO-X


O relógio da parede nunca foi preciso.
Adiantava alguns minutos em certos dias, atrasava em outros. Ainda assim, ninguém tentou ajustá-lo. Ele marcava um tempo aproximado, suficiente para orientar rotinas, nunca para confirmá-las.
Durante anos, foi assim.
As pessoas olhavam o relógio sem realmente lê-lo. O gesto era automático, quase um reflexo. Conferir o horário não significava saber que horas eram, apenas confirmar que o tempo continuava avançando.
Em determinado momento, alguém percebeu que ninguém mais perguntava pela hora exata.
As conversas deixaram de incluir compromissos rígidos. Chegadas e partidas passaram a acontecer sem explicação formal. Quando alguém se atrasava, não havia pedido de desculpas. Quando alguém chegava cedo, não havia surpresa.
O relógio seguia funcionando.
Certo dia, notaram que ele havia parado.
Não houve reação imediata. Alguns passaram por ele sem olhar. Outros olharam e seguiram adiante, como se a informação não fosse relevante. O ponteiro imóvel não provocou urgência.
Horas depois — ou talvez dias — alguém girou a manivela lateral. O mecanismo respondeu prontamente. O relógio voltou a marcar o tempo.
Mas algo havia mudado.
Desde então, ninguém mais conseguia lembrar qual havia sido o último horário correto. As referências se perderam. O antes e o depois deixaram de ter limites claros. Quando perguntavam quando algo havia acontecido, a resposta vinha vaga demais para ser útil.
O relógio permaneceu na parede.
Às vezes era observado por longos períodos. Em outras, completamente ignorado. Ele marcava horas que não coincidiam com nenhuma agenda conhecida.
Houve tentativas de substituição. Nenhuma se manteve. Os novos relógios eram retirados discretamente, como se ocupassem um espaço que não lhes pertencia.
Hoje, o relógio ainda está lá.
Funciona.
Marca horas.
Produz som.
Mas ninguém sabe dizer se ele antecipa o que vem a seguir
ou se insiste em registrar um tempo que já passou.
A última hora nunca foi confirmada.
