As Luzes Apagadas Ainda Acesas
Sobre aquilo que continua mesmo depois de encerrado.
RAIO-X


A luz foi apagada como de costume.
Um gesto automático, quase inconsciente. A mão alcançou o interruptor, pressionou com leveza, e o ambiente mergulhou na escuridão esperada.
Nada fora do comum.
Ainda assim, algo permaneceu aceso.
Não era visível de imediato.
O quarto parecia completamente escuro. Os contornos dos móveis se dissolveram, as cores deixaram de existir, e o silêncio ocupou o espaço com a familiaridade de sempre.
Mas havia uma presença residual.
Ele fechou os olhos.
E percebeu que a escuridão não era total.
Havia uma espécie de luminosidade interna, difícil de localizar. Não vinha de fora. Não dependia de fonte física. Era mais próxima de uma lembrança do que de uma luz real.
As luzes apagadas nem sempre se apagam por completo.
Certas imagens continuam projetadas mesmo depois que o ambiente escurece. Formas persistem. Detalhes retornam com uma nitidez que não estava presente quando a luz ainda estava acesa.
O rosto.
A cena.
A última palavra.
Tudo reaparecia.
Não como memória organizada, mas como fragmento iluminado em um espaço onde não deveria haver nada.
Ele tentou ignorar.
Virou o corpo, ajustou a posição, buscou o conforto que normalmente vinha com o fim do dia. Mas a luz persistia — não no quarto, mas atrás dos olhos.
Há coisas que continuam acesas por dentro.
Mesmo quando já não têm função.
Mesmo quando deveriam ter sido encerradas.
A tentativa de dormir se tornou mais lenta.
O silêncio, antes acolhedor, passou a amplificar aquilo que ainda estava ativo. Quanto mais escuro o ambiente, mais evidente se tornava a permanência.
As luzes apagadas ainda acesas não iluminam o presente.
Elas revelam o que não foi desligado corretamente.
E não há interruptor para isso.
O tempo pode reduzir a intensidade.
Pode tornar a imagem menos definida, mais distante, menos urgente.
Mas não apaga.
Porque certas coisas não deixam de existir quando se decide encerrar.
Elas apenas mudam de lugar.
E continuam acesas, onde ninguém vê — mas onde tudo ainda pode ser revisto.
