Entre Duas Madrugadas
Sobre pensamentos que não encontram descanso.
RAIO-X


A primeira madrugada sempre parece mais longa.
Há um cansaço legítimo no corpo, uma tentativa honesta de dormir. As luzes se apagam, os ruídos diminuem, e o quarto assume aquela neutralidade que deveria acolher o descanso.
Mas o pensamento não acompanha.
Ele continua ativo, percorrendo caminhos antigos, refazendo conversas, antecipando diálogos que talvez nunca aconteçam. A mente se movimenta com uma energia que o corpo já não possui.
Entre uma madrugada e outra existe um intervalo invisível.
Um espaço em que o tempo não avança nem recua — apenas se estende. O relógio marca horas com precisão mecânica, mas dentro do quarto tudo parece suspenso.
Há quem conte segundos.
Há quem tente controlar a respiração.
Há quem finja que está dormindo para convencer a si mesmo.
A segunda madrugada começa quando a primeira ainda não terminou.
É ali que o silêncio muda de textura. Deixa de ser ambiente e passa a ser presença. Ele não envolve, ele pressiona.
Pequenos sons ganham proporções indevidas.
O estalo da madeira, o motor distante de um carro, o próprio batimento cardíaco. Tudo se amplia, como se o mundo tivesse sido reduzido a poucos ruídos essenciais.
Entre duas madrugadas, o pensamento se torna mais honesto.
Sem distrações, sem compromissos imediatos, ele diz coisas que durante o dia são abafadas. Perguntas surgem sem aviso. Lembranças se aproximam com nitidez desconfortável.
Há uma tentativa de negociação.
“Só mais alguns minutos.”
“Só mais um pensamento.”
Mas a mente não aceita acordos simples.
O corpo pede descanso.
A alma pede explicações.
E entre esses dois pedidos, a madrugada permanece.
Quando finalmente o sono chega — se chega — ele não resolve nada. Apenas interrompe. Na manhã seguinte, tudo parecerá menor, mais administrável. Mas a madrugada guardará o que foi dito ali.
Entre duas madrugadas não há testemunhas.
Apenas um quarto escuro, um relógio insistente e pensamentos que se recusam a dormir.
Entre Duas Madrugadas
Sobre pensamentos que não encontram descanso.


