O Nome Que Não Foi Anotado
O nome foi ouvido mais de uma vez, mas nunca apareceu por escrito.
RAIO-X


Ele disse o nome uma única vez.
Não foi apresentado. Não pediu que repetissem. Apenas mencionou, no meio de uma frase comum, como se não houvesse dúvida de que seria lembrado depois.
Ninguém anotou.
No início, isso não pareceu relevante. O nome não era incomum. Não soava estranho. Não chamava atenção suficiente para justificar correção imediata. As pessoas continuaram ouvindo o restante do que ele dizia, acreditando que o registro viria naturalmente.
Não veio.
Dias depois, alguém tentou se referir a ele e hesitou. A frase foi interrompida no meio. Houve uma pausa breve demais para virar pergunta, longa demais para passar despercebida.
Outro tentou preencher o vazio com aproximações. Usou pronomes. Apontou. Reformulou frases para evitar a menção direta.
Ele percebeu.
Não demonstrou incômodo. Continuou falando, participando, respondendo quando era chamado — mesmo que o chamado nunca fosse exatamente o seu nome.
Com o tempo, o esforço para lembrar deixou de existir. Não por descaso, mas por acomodação. A ausência passou a funcionar. As conversas fluíam sem identificação precisa.
Em um registro posterior, alguém tentou corrigir a falha. Escreveu uma nota curta, entre parênteses, indicando que o nome deveria constar ali. O espaço foi deixado em branco.
Nenhuma tentativa seguinte foi feita.
Hoje, ninguém lembra qual era o nome.
Alguns afirmam que saberiam reconhecê-lo se ouvissem novamente. Outros dizem que talvez nunca o tenham escutado de fato. As versões não entram em conflito porque nenhuma se sustenta por completo.
Ele ainda é mencionado.
Nunca identificado.
Nunca nomeado.
E, ainda assim, presente em todos os relatos.
