O Som do Relógio na Sala Vazia
Sobre o tempo que insiste em continuar.
RAIO-X


O relógio nunca foi percebido com tanta clareza.
Enquanto havia conversa, passos, portas abrindo e fechando, seu som se misturava ao resto. Cumpria a função discreta de marcar as horas sem ser notado.
Agora, ele era o único movimento constante na sala.
O tic-tac não acelerava nem diminuía.
Era preciso, indiferente. Não se ajustava ao humor do dia nem às pausas prolongadas. Apenas seguia, segundo após segundo, como se nada tivesse mudado.
Mas tudo tinha.
A sala permanecia organizada, quase intacta. Sofá no mesmo lugar, mesa alinhada, objetos distribuídos com cuidado. A diferença estava no ar — uma ausência que não ocupava espaço físico, mas alterava a percepção.
O som do relógio preenchia os intervalos.
Entre um pensamento e outro. Entre uma tentativa de levantar e a desistência. Ele se infiltrava nas brechas, lembrando que o tempo não espera reorganizações emocionais.
Há algo incômodo na regularidade.
Enquanto tudo parece suspenso, o relógio continua avançando. Não há pausa para quem ainda não terminou de entender o que aconteceu.
Em certos momentos, o tic-tac se torna quase agressivo.
Não pelo volume, mas pela insistência. Ele marca aquilo que não volta. Cada segundo registrado é um segundo que não pode ser recuperado.
A sala vazia começa a parecer maior.
O eco dos próprios passos ressoa diferente. O relógio, fixo na parede, torna-se o único testemunho de que o dia ainda está em andamento.
Não há pressa visível.
Mas há movimento.
O som constante cria uma sensação paradoxal: tudo parece parado, mas nada está. O tempo atravessa o espaço sem pedir permissão, acumulando-se nas superfícies, nas memórias, nas decisões adiadas.
Em algum momento, o relógio deixa de ser ruído e se torna companhia.
Não acolhe, não consola, mas oferece uma certeza simples: o tempo continua.
E talvez seja isso que mais incomoda.
Ou que mais sustenta.
O som do relógio na sala vazia não resolve o que ficou.
Apenas lembra que permanecer imóvel também é uma forma de atravessar o tempo.
O Som do Relógio na Sala Vazia
Sobre o tempo que insiste em continuar.


